Quilombola Onildo Alves e o Professor Rafael Rodrigues momento antes de começar o XVII encontro de extensão na UFCG, campus Sumé-PB.
"Boa tarde. Sou Onildo do Nascimento Alves, e hoje meu coração está do tamanho do mundo.
Em 2014, eu estava ns antigos agência do Banco do Brasil de Alagoa Grande, quando o professor Rafael Rodrigues, que eu não conhecia, me perguntou: 'Por que ninguém de Caiana dos Crioulos se formou?'
Naquela época, o PT passava por um momento difícil, e as pessoas nem queriam ouvir falar do partido. Eu, de camisa e bermuda vermelha, olhei nos olhos do professor e disse: 'Eu só tenho o 3° ano do fundamental, mas existe uma bolsa quilombola de 740 reais. E eu já estou me preparando para recebê-la.'
Dias depois, ele me viu e confirmou: 'É verdade existe mesmo essa bolsa!'
(Ainda hoje tem professores que não conhecem a bolsa de permanência para universitários quilombolas e indígenas. O professor Rafael apoiou durante a sua graduação no curso de L|icenciatura em Física, o primeiro Bolsista quilombola da UFCG, campus Cuité, William Santos e hoje está fazendo o seu estágio de pós-doutorado em Física na UFJF, Juiz de Fora-MG. )
Hoje, olho para trás e vejo que aquele momento não foi só sobre uma bolsa. Foi sobre sementes. O professor Rafael buscou informações, e aquela semente germinou.
Agora, 12 anos depois, estou aqui vendo Maria Vitória da Silva — nossa menina, nosso sangue, nossa luta — colar grau em Engenharia de Biotecnologia.
Vitória, você não é só uma formada. Você é a resposta para aquela pergunta de 2014. Você é a prova de que o conhecimento chega sim onde antes diziam que não podia.
Parabéns pela sua vitória... duas vezes!
Uma pela formatura. Outra por carregar no peito a força de um povo que nunca desistiu.
Que a ciência que você aprendeu sirva para curar, plantar e libertar. Assim como aquele dia me libertou da dúvida e me deu esperança". O curso de Engenharia de Biotecnologia e Bioprocessos da UFCG, no campus de Sumé, não é apenas uma graduação. Para uma comunidade quilombola como Caiana dos Crioulos, ele representa uma ponte entre o conhecimento científico e as demandas reais do semiárido e do povo que nele vive.
Este curso é reconhecido nacionalmente com 4 estrelas no ranking do Estadão, formando engenheiros com uma base sólida em biologia molecular, bioquímica, microbiologia e engenharia de processos. Mas, o que torna essa formação especialmente significativa para um aluno quilombola?
1. Compromisso com o Semiárido e a Sustentabilidade: O CDSA tem como marca o "desenvolvimento sustentável". O egresso é preparado para reconhecer problemas ambientais e buscar soluções regionais, utilizando os recursos genéticos do semiárido de forma responsável . Isso significa levar para a comunidade tecnologias adaptadas à sua realidade, como o controle biológico de pragas, a biorremediação de solos e a exploração sustentável da caatinga .
2. Interdisciplinaridade e Inovação. O curso foca em biotecnologia vegetal, animal e microbiana, abrindo portas para áreas como produção de mudas livres de patógenos (micropropagação), melhoramento de plantas para resistência ao estresse e desenvolvimento de bioenergia . Para um quilombo que vive da terra, dominar essas ferramentas significa agregar valor à produção, garantir segurança alimentar e gerar renda de forma inovadora.
3. Formação de Lideranças Científicas. A história de Maria Vitória é a prova viva do impacto social do curso. Ela é a primeira engenheira biotecnóloga de Caiana dos Crioulos, e seu exemplo quebra ciclos de exclusão. A universidade pública, ao formar esses profissionais, forma lideranças capazes de atuar como agentes de transformação dentro de suas próprias comunidades — seja diagnosticando doenças em plantas ou animais, seja criando novos produtos a partir da biodiversidade local .
4. Respeito e Reparação. A luta da comunidade quilombola está intrinsecamente ligada à luta por direitos e acesso. A formatura da Maria Vitória, apoiada pelo professor Rafael que a ajudou com caronas, reforço escolar, comprou o seu primeiro notebook para ela pagar aos poucos, sem juros, simboliza a reparação histórica e prova que a ciência pública é um caminho de ascensão e orgulho para os povos originais.
Convite para a colação de grau de Maria Viotória e demais concluintes da UFCG, campús Sumé.
Blog rafaelrag

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